Psicologia & Adoção

Sintomas da Adoção Tardia e Adaptação – psicóloga Heloisa Sampaio

Crianças que permaneceram em abrigo por um longo período e foram adotadas tardiamente exigem uma maior atenção na fase de ajustamento/adaptação à sua família. A adoção tardia é um conceito usado quando há a adoção de crianças com mais de 3 anos de idade.

Foto: anglicanpastor.com

Foto: anglicanpastor.com

Nessa idade as crianças já tem uma independência relativa ao de um bebê, muitas delas já consegue se alimentar, se locomover, falar com maior destreza e possivelmente já não usam mais fraldas. Muitas vezes essa relativa autonomia da criança alimenta o ideal de alguns pretendentes à adoção que desejam adotar uma criança que dê menos “trabalho” que um bebê. Esse é um ideal falho, uma vez que toda criança dá “trabalho”, independente da sua idade.

Longe de universalizar as adoções, pois sem dúvida, cada história de adoção é ímpar, única, singular, e bela. E também longe de romantizá-la (assim como a maternidade biológica), pois seria um desserviço, meu, aos pais, o processo de adaptação da criança adotada tardiamente é trabalhoso sim, exige um exalar de amor incondicional à uma pessoinha que com o pouco tempo de vida que tem, convive com a dor da angústia, da separação, da negligência, da desproteção, do desamor, e mesmo que ela esteja desejosa de ter uma família, ela irá testá-la para confirmar, se pode “usá-la” como um pote onde ela despejará seu amor, seu carinho, mas também seus medos, raivas, angústias, tristezas e incertezas.

Apresentação da família/ Pais como porto seguro, ponto de referência.

Nos primeiros contatos, a criança vislumbra o poder pertencer a uma família. Agora ela é filha, neta, sobrinha, vizinha, prima, são inúmeras pessoas a quem ela pertence, e que por consequência pertencem a ela. É dificultoso para uma criança compreender a trama familiar. Por isso é tão importante, que essa apresentação seja feita aos poucos, gradativamente e sempre após ela ter formado vínculo forte e amoroso com seus pais, e confiar que eles estarão ali para protegê-la, enquanto ela se aventura explorando/ conhecendo sua família.

Foto: www.britishcouncil.co

Foto: www.britishcouncil.co

O encantamento

Ainda conhecendo seu novo lar, onde há muitas novidades boas, como a atenção integral de seus pais, roupas e brinquedos novos, comida farta e diversificada, e possivelmente algumas guloseimas. Essa realidade apresentada à criança é tudo que ela sempre desejou, ela fica encantada e estará disposta a fazer de tudo para não perder essa oportunidade e por ventura retornar ao abrigo. Então, na esperança de cativar seus pais, se comporta da forma como esses desejam. Comem tudo, dorme no horário combinado, respeita as regras (…). Nesse momento ela busca ser o que os pais desejarem. Logo Logo irá confiar o bastante em seus pais para poder lhe apresentar sua verdadeira essência e personalidade.

Fase teste

É uma fase muito difícil, conturbada e que exige dos pais uma atenção maior, uma maior DEMONSTRAÇÃO de amor. É para nós psicólogos, a entrada da fase teste é sinal de que até agora, está indo tudo muito bem. É saudável a vivência dessa fase. Por que? Porque não só as crianças adotivas, mas todo mundo, seja criança, adolescente ou adulto, uns mais, outro menos, nós só testamos as pessoas que realmente nos importam e que de certa forma vislumbramos que ela permaneça em nossas vidas. Até mesmo usamos essa “técnica” na nossa vida pública. Pra conseguir um novo emprego, passamos por diversos testes, e se o empregador confiar em você e no seu potencial, você possivelmente estará empregado. A diferença entre esse teste e o teste da criança adotada tardiamente, é que ela testa sem a clareza que está testando, inconscientemente ela utiliza esse mecanismo para se proteger de novas dores, novas angústias, novos temores. E os pais que resistem por amor a essa chuva de provações, receberá como “prêmio” a confiança de seu filho, que a partir desse momento, depositou em vocês todo seu amor, carinho, respeito, medo, raiva, tristeza (…) todos e qualquer sentimento e histórias que pertence a ele, agora pertencerá a vocês. Essa fase não tem tempo certo de duração, depende muito do tempo de abrigamento, histórico de negligencia, violação de direitos humanos que a criança sofreu e da própria resiliência da criança para enfrentar essas dores. Também depende da capacidade de sobrevivência, de amor, de continência dos pais para suportarem os “ataques”.  Em média a fase dura entre 2 à 6 meses, mas pode durar o tempo necessário para que a criança consiga se sentir sustentada pelo amor de seus pais.

Alguns dos principais sintomas da fase teste:

Vale ressaltar, que é importante que esses sintomas sejam vividos com respeito, com amor, sem recriminação e violência. No final da fase teste é como se a criança pensasse: – “Pronto, se eles suportaram tudo isso, suportaram os monstros que vivem em mim – medo, raiva, tristeza, angústia. Posso contar com eles.”

Foto: www.growingyourbaby.com

Foto: www.growingyourbaby.com

– Regressão

A criança que cresceu abrigada, raramente teve um vínculo emocional intenso com seus cuidadores. Neste caso, precisam reviver algumas experiências, como uma forma de preencher lacunas do seu desenvolvimento. Como, por exemplo, usar chupeta, mamadeira, pedir muito o colo, balbuciar (falar como bebê), fazer xixi na cama, retornar as fraldas (…)  

São experiências que um bebê vive cotidianamente e que são respondidas com afeto, quando este tem um vínculo forte e positivo com seu cuidador. Assim a criança que não recebeu esse carinho em uma fase tão primitiva do seu psiquismo (quando tudo que tinha a oferecer era choro, coco, xixi e tensões musculares) busca vivência-los na tentativa de ressignificá-los. Cabe aos pais oferecer a oportunidade de dar um significado amoroso as experiências tão simples e rotineiras.

Foto: www.livestrong.com

Foto: www.livestrong.com

– Dor de barriga

Quem nunca sentiu dor de barriga quando se sentiu ansioso, com medo, receio ou quando se viu em frente à incerteza. É isso! Temos que nos esforçar para sermos empáticos, nos colocar no lugar dessa criança. Nesse momento, a família é uma incerteza. Talvez também seja para os pais, pois provavelmente ainda só tenham em mãos a guarda da criança, e ainda passaram por diversas etapas para receberem a certidão de nascimento.

A dor de barriga é comum, principalmente quando a criança se vê longe dos pais, seja na escola, casa dos avós ou até mesmo no quintal da casa. Basta ela perceber que de certa forma não está com os pais que as suas fantasias de abandono é acionada. Muitas outras vezes, a dor, fica só na dor e não há disenteria, ou a dor acaba quando os pais aparecem. Não é frescura! É a emoção e sentimentos que encontraram no corpo uma forma de se comunicar e dizer que longe de vocês pais, a vida (emocional) desanda e que precisa de vocês para ampará-la. Ela tem medo de vocês irem e nunca mais voltarem.

– Birra

Acredito que a birra venha alertar os pais que a criança é seu filho(a), mas que ela terá autoria de sua própria história e cabe aos pais, em seu papel de coadjuvante importante oferecer a criança um ambiente que propicia e criação de uma história saudável e feliz. É uma fase de questionar e mostrar seus desejos. Nesse momento, é algo saudável à ser vivido. Estejam prontos para acolher, empatizar o desejo da criança que vem em formato de birra, e limitem o que pode e o que não pode. A birra pode ser pensada como algo positivo, pois é nas primeiras tentativas que a criança mostra-se quem realmente é.

Foto: www.additudemag.com

Foto: www.additudemag.com

– Não seguir regras

O mundo da criança (adotiva ou não) é caótico. Ela precisa de adultos prontos para organizá-lo. Acontece que a criança adotada tardiamente, devido a regressão emocional, se encontra em uma fase de Egocentrismo, ou seja, tem a percepção de que o mundo acontece através de suas percepções e que todos deveriam servi-la, inclusive as regras. Nesse momento, é importante esclarecer que a regra deverá ser cumprida e que ela existe porque os pais sabem o que é melhor para ela e que eles a amam muito. Claro, toda regra pode ser flexibilizada, o que não quer dizer que ela será abolida devido ao desejo exclusivo da criança.  Pais norteiam o caminhar pela vida, e para isso utilizam de regras e são eles mesmos os maiores exemplos a seguir.

Foto: www.mailman.columbia.edu

Foto: www.mailman.columbia.edu

– Agressividade

Vivemos em um emaranhado de sentimentos e emoções, boas e ruins, e aprendemos como expressá-las e reagir à elas.  O fato é: que aprendemos porque alguém nos ensinou, ou melhor, moldou nossa forma de expressão e reação quando sentimos alguma emoção ou sentimento. Quando conhecemos nossos sentimentos e emoções  podemos nomeá-las o que torna mais fácil a compreensão do outro sobre nós, e isso é, em si, aliviante. As emoções e sentimentos são energias vitalizantes, nos tornam humano. Acontece que elas nos causam diversas sensações, como: dor de barriga, dor de cabeça, tensão dos músculos, escorrem lágrimas, e quando não reconhecemos que essas sensações são decorrentes de um sentimento ou emoção as enxergamos como ameaça e nos causa uma angústia sem tamanho. A agressividade é a exacerbação dessa energia emocional que escorre para a expressão enquanto energia física. É importante que os pais os retenham, e nomeiem essas emoções e sentimentos e diga como expressá-las e reagir a elas. Exemplo: “Você está sentindo raiva. Não pode me morder por isso. Se acalme.”

A adaptação de crianças na adoção tardia muitas vezes não é um processo fácil e rápido, mas é fundamental para a construção do vínculo, do amor, da confiança e principalmente, do sentimento de pertencer. A chave para o sucesso é ter disponibilidade para amar incondicionalmente e persistir na postura de ser pai e mãe.

Curtam essa fase e a vivam com tranquilidade. É uma fase agitada, mas águas calmas virão se souberem como e para onde navegar.

Aconselho todos os pais,  que estão aguardando a chegada do filho e também aos que já os conheceram, a buscar aconselhamento psicológico – pré e pós natal  psicológico da gravidez invisível. É essencial compreender o desenvolvimento emocional da criança para poder acolhê-la de forma saudável e potencializar o amor e a tranquilidade na família.

Até a próxima!

Heloísa Sampaio

Psicóloga CRP 05/49813

hsampaio.psicologia@gmail.com

www.gravidezinvisivel.com

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Heloisa Sampaio

Heloisa Sampaio

Carioca de coração, nascida no interior de São Paulo. Apaixonada pelo ser humano e uma curiosa da adoção e seus atravessamentos. Mergulhei nesse tema ainda na Universidade, desenvolvendo pesquisas e participando do "Transformando Nós em Laços" – Grupo de Apoio à adoção. Hoje estudo e pesquiso o desenvolvimento emocional de bebês e crianças e por consequência estudo o que o ambiente necessita oferecer a eles para que seu desenvolvimento seja saudável e evolutivo.
Sou psicóloga clínica na abordagem Psicanalítica com experiência em atendimento psicoterápico com crianças, adolescentes, famílias formadas através da adoção, puérperas e adultos, com as mais diversas queixas emocionais e de comportamento. Pós-Graduanda em atenção integral à saúde materno-infantil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Membro do Grupo de estudo sobre Clínica com Bebês e Crianças – Maternelle. Membro do Grupo de estudo “Gestação, Gravidez e Desenvolvimento Infantil”.  Aprimorada em Desenvolvimento Infantil na Perspectiva Psicanalítica – Prometheus/Bauru e em Fundamentos da Psicologia Perinatal e Parental – Gerar-SP. Graduada em Psicologia pela USC. Administradora da página Parentale Psicologia no Facebook e Instagram. Voluntária da Make-A-Wish Brasil. E agora, com muita honra, colunista do site Gravidez Invisível. Muito Prazer!
 
Heloisa Sampaio – Psicóloga – CRP 05/49813
E-mail: hsampaio.psicologia@gmail.com
Telefone: (21) 99757.5453
Clínica Psicológica da Barra - Barra da Tijuca/ Rio de Janeiro
Espaço Subjetivação – Botafogo/ Rio de Janeiro.

8 Comentários

  1. maio 17, 2016 em 2:42 pm — Responder

    Boa tarde pra todos vcs) eu e o meu marido entramos com processo de adoção em 2009. nos morava em Atibaia inteiro de São Paulo. Em 2011 nós vemos embora pro ceara e até agora o nosso filha ou filho nada ainda já estamos ei 2016 nei uma ligação ou notícias nós estamos esperando até agora) me ajude por favor gente bjsssss

    • Profile photo of Gravidez Invisível
      maio 24, 2016 em 9:33 am — Responder

      Zulma, vcs já foram no Foro pra saber se continuam no CNA? Cadastro Nacional de Adoção? Seria bom vcs darem uma olhada nisso! Beijos

  2. junho 4, 2016 em 4:04 pm — Responder

    Excelente texto. Posso usa-lo (devidamente referenciado) na preparação a adoção na Vara que eu trabalho?

    • Profile photo of Gravidez Invisível
      junho 4, 2016 em 4:42 pm — Responder

      Pode sim, claro!

      • junho 6, 2016 em 3:19 pm — Responder

        Agradecida!

  3. julho 5, 2016 em 12:36 pm — Responder

    Perfeito. Infelizmente, fala-se muito bem da adoção tardia, e isso não prepara os pais para que o realmente vai acontecer. Amei o texto. Estou justamente nessa fase difícil. Adotei dois irmãos. Meu filho é um amor, a adaptação foi tranquila e maravilhosa. Mas minha filha é difícil. Encaixa-se em tudo aí. Tudo mesmo. Regressão, agressividade, teste, birra, egoísmo. Só não no encantamento. Há quase 1 ano e meio e não se preocupa nem um pouco em agradar. Faz tudo para desagradar. Só 4 aninhos e sabe mentir perfeitamente. Acha que todos estão sempre errados, menos ela. Odeia levar bronca. Guarda muito rancor. Mas eu a amo e sei que vamos superar com a ajuda de Deus. Mas é pesado.

  4. agosto 29, 2016 em 12:24 am — Responder

    Parabéns, lindo texto e com um conteúdo que deveria ser passado para todos os pais pretendentes a adoção. Também passei por exatamente tudo conforme descreveu. Adotei dois meninos, o menor tinha 5 e o mais velho 7. Hoje, depois de quase dois anos e meio, e muito acompanhamento psicológico é que conseguimos perceber as mudanças (para melhor) das crianças. Se eu tivesse lido seu texto antes de conhecê-los talvez poderia estar mais bem preparada para a chegada deles. Parabéns !! Thais Doreto

  5. abril 22, 2017 em 12:46 pm — Responder

    Adoção é um gesto tão belo.

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