Pós-parto do coração

Falando sobre adoção inter-racial, interétnica e racismo

Vamos falar sobre adoção inter-racial ou interétnica?

Segundo o Wikipedia: “Adoção inter-racial (também referida como adoção transracial) refere-se ao ato de colocar uma criança de um grupo racial ou étnico com os pais adotivos de outro grupo racial ou étnico. Adoção inter-racial não é a mesma coisa que a adoção internacional ou transcultural embora em algumas circunstâncias pode ser uma adoção inter-racial, internacional e transcultural.”

12459759_1657193914551552_675002207_nAinda não tinha abordado este tema aqui no blog, mas após a chegada do meu 2º filho, cuja cor da pele é diferente da minha, tenho lidado com a questão com mais frequência. Me preparei para este momento, mas confesso que ainda assim me sinto um pouco desconfortável ao sair na rua e sempre ter olhares voltados para minha família. As pessoas ficam olhando mesmo. Olhares curiosos. Olhares preconceituosos. Olhares de afeição. Mas o mais estranho disso tudo é que não necessariamente devem pensar que minha família foi formada pela adoção, pois existem inúmeros pais com filhos biológicos que não possuem a mesma cor de pele, o problema aqui é o racismo.

Se você está pensando em aumentar a família e existe a possibilidade do seu filho ser de uma raça/etnia diferente da sua, prepare-se bem. Leia sobre o assunto, informe-se, discuta sobre o tema com seu cônjuge, familiares e amigos próximos. Muitas pessoas falam que não se importam com o que os outros pensam, mas precisamos lembrar que estas crianças já vieram de uma situação de abandono e rejeição, passar por isso novamente seria bem complicado, e além do mais, elas inevitavelmente serão inseridas na sua família extensa. Impossível viver numa bolha e ser feliz.  “Embora a adoção seja a decisão resultante do desejo de ter filho pelo pai e pela mãe (ou mesmo na adoção monoparental), em nossa cultura, a família extensa tem uma contribuição afetiva e existencial, psicologicamente importante para que pais e filhos não tenham que lutar contra obstáculos perfeitamente dispensáveis.” extraído do livro Pedagogia da Adoção de Luiz Schettini Filho. Se alguém próximo a você tem problemas com esta questão, converse, esclareça, ajude a quebrar o preconceito.

Temos que estar preparados para educar as pessoas, até mesmo os desconhecidos na rua. Alguns são bem indiscretos e desagradáveis e normalmente fazem perguntas ou comentários na frente dos meus filhos, então tenho que passar segurança e tranquilidade na minha resposta. Talvez não entendam tudo ainda, mas com certeza eles sentem as emoções da minha resposta. É sempre bom manter a calma mesmo que a pessoa tenha ultrapassado os limites da cordialidade. Responda tirando o foco da criança e amplie para a família, por exemplo: Pergunta: Então o moreninho é adotado? Resposta: Nossa família foi formada pela adoção, meus filhos foram adotados, agora são meus filhos. Todos nós nos adotamos em amor.

Não simpatizo com o termo adoção inter-racial, porém é o mais utilizado para abordar a questão da formação de uma família através da adoção em que pais e filhos são de raças/etnias diferentes. Não gosto deste termo justamente pelo fato de acreditar que estamos falando de adoção entre seres humanos, somos da mesma espécie, a cor da pele não deveria entrar na questão. Porém, vivemos num mundo e num país em que o racismo ainda é uma (triste) realidade. Tenho acompanhado o trabalho da consulesa da França no Brasil, Alexandra Loras, que já viajou para mais de 50 países, e segundo ela o Brasil é o país mais racista do mundo, veja aqui uma entrevista dela! Outra entrevista da Alexandra bem completa, vale a pena assistir aqui!

Judy Stigger, Diretora da agência de adoção “Adoption Learning Parents“, conta neste vídeo que as pessoas que decidem pela adoção inter-racial/interétnica falam que não são racistas, não se importam com isso, porém o mundo em que vivemos é. E após a adoção de seus filhos ela tornou-se consciente de como o mundo é “branco”, nos outdoors, televisão, pessoas na sua volta, coisas que ela não tinha notado até então, e que estamos inseridos num privilégio racial. Então, se deu conta de que para ser mãe dos seus filhos ela não poderia mais viver da mesma maneira. E então passou a ver o mundo com outros olhos. Este relato descreveu exatamente o que aconteceu comigo. Você não entende verdadeiramente o racismo até que esteja vivenciando.

No Brasil as pessoas tem mais facilidade para aceitar a adoção de animais, pessoas que tratam seus pets como filhos, que no caso é uma adoção entre ESPÉCIES diferentes. Não estou aqui julgando ninguém, eu também tenho animais de estimação, estou apenas apresentando fatos aos leitores. Coloque no seu instagram ou facebook a hashtag #adoção e veja com os seus próprios olhos o que aparece. Graças a Deus nas pesquisas no google isso já mudou.

image

Print screen de 02/02/2016

 

Segundo a Dra. Lidia Weber “O termo inter-racial não é verdadeiramente correto, pois, de acordo com a Antropologia, somente existe uma raça, a humana. Poderia ser chamada interétnica então. Nem sempre também é verdade, pois apenas uma nuance de cor de pele não caracteriza uma etnia diferente. Chama-se assim, especialmente no Brasil, quando pais e filhos com grandes ou ligeiras diferenças da cor de pele. Vivemos no país considerado o mais miscigenado do mundo, sendo que, pelo menos metade da população é considerada parda ou negra e, mesmo assim, ainda causa estranhamento este tipo de adoção.” Trecho extraído do livro Adote com Carinho da Editora Juruá.

Sugestões da Dra. Lidia Weber para as famílias:

  1. Tenha consciência de que o racismo existe.
  2. Falar sobre isso faz com que o seu filho desenvolva estratégias para lidar com ele.
  3. Construa pontes que liguem sua família a amigos e comunidades da mesma raça/etnia que seu filho.
  4. Frequente, com sua família, grupos em que seu filho não seja a minoria.
  5. Seja cúmplice, parceiro e mostre empatia para com seu filho sobre a questão.
  6. Valorize sempre as carecterísticas e talentos do seu filho.

Trecho extraído do livro Adote com Carinho da Editora Juruá, recomendo a aquisição e leitura pois o livro é maravilhoso!

Vamos falar mais sobre este tema, envie os seus comentários ou perguntas aqui no blog, na página do facebook, instagram ou email luciane@gravidezinvisivel.com

Com carinho,

Luciane

image

Post anterior

A chegada do 2° filho - Nova estrutura familiar e a construção do vínculo afetivo

Próximo post

Falando de adoção: Participação no portal da PlayKids - Family

Luciane Moreira Cruz

Luciane Moreira Cruz

Gaúcha de nascimento, inglesa de coração. Administradora por profissão, blogueira por uma causa. Venturosamente esposa do Filipe e mãe dos príncipes Noah e Luca. Fui abençoada com uma família maravilhosa e amigos preciosos. Sonhadora ao exponencial infinito. Essencialmente uma caçadora de Deus. Acredito no bem e que ele sempre vence o mal, que menos também pode ser mais e que a felicidade pode sim virar rotina. Já fui mais organizada, a maternidade me trouxe outras prioridades, mas amo etiquetas organizacionais! Possuo muita determinação e persistência para lutar pelo amor e pela justiça. Amo os animais, especialmente meu cão e fiel escudeiro Johnny e a espoleta Amora. Por aqui, compartilho as experiências vividas durante o período de gestação do coração (gravidez invisível) e sobre o universo da formação de uma família através adoção. Tenhos muitos sonhos, um deles é pelo direito que toda criança tem de viver em família recebendo amor, carinho e respeito. Outro é contribuir para uma nova cultura da adoção no meu país. Desejo que você encontre aqui apoio e que saia daqui com novas ideias. Seja sempre bem-vindo!

4 Comentários

  1. fevereiro 2, 2016 em 3:13 pm — Responder

    LU, perfeito! obrigada pelas palavras. Este foi um tema muito complexo para minha escolha. Eu não tenho preconceito, mas não sei como lidaria se meu filho ou filha passasse por isso. Mas me preparei, refleti, e pude fazer a escolha bem preparada.
    obirgada, bjus.

  2. fevereiro 9, 2016 em 1:55 pm — Responder

    Perfeito, Luciane. Minha filha já tem 8 anos e os olhares ainda me incomodam.
    Tem olhares duros, inquisodore, principalmente quando a família toda está junto. Percebo que se estou sozinha com ela isso acontece com menor frequência.
    Já paasei situações constrangedoras e embaraçosas.
    É preciso muito jogo de cintura para lidar com estas situaçôes sem deixar que afetem nossos filhos.

    Parabéns pelo texto.

  3. março 11, 2016 em 4:37 pm — Responder

    Luciane, essa questão dos olhares é algo que estou aprendendo a tirar de letra (minha filha tem 3 anos e está comigo desde os 6 meses). A minha questão não sou eu ou meu marido e sim: ela. Apesar de ser linda de “viver”, como ela vai lidar com tudo isso quando tiver entendimento? Graças a Deus o meu marido é moreno, não é branquelo como eu. Quero me preparar para este momento. Sempre tive duvidas, pois convivo num bairro, numa escolinha e numa igreja onde as crianças são tao brancas! nunca tinha percebido isso antes, como você falou. Ao escolher a próxima escola pra ela, considero pela qualidade de ensino, as características que me atraem numa escola, inclusive valores, ou procuro escolher também uma escola onde a minha filha não seja a minoria da minoria, como dia a Lidia Weber. Voce já pensou nisso?

    • Profile photo of Gravidez Invisível
      março 14, 2016 em 9:44 pm — Responder

      Oi querida, sim, também tenho avaliado a questão da diversidade na hora de escolher a escola!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *