Psicologia & Adoção

Adoção monoparental – por Heloísa Sampaio

O bom desenvolvimento emocional de uma criança depende muito da combinação de duas funções exercidas pelos pais, o de acolher e apresentar. Quando a criança chega em seu lar, ela é prontamente acolhida e envolvida por um amor. Os pais enlouquecem com tamanha fofura, “Veja como é lindo!”, “Ela é muito esperta.”, dizem. Quando pais e filhos já estão bem adaptados e seguros, a segunda função, já existente, toma força. Agora é necessário apresentar ao recém-chegado todo o grupo ao qual ele pertence, depende e participa.

O sentimento de pertença, promovido pela primeira função é alimentado, muitas vezes, por uma relação dual, ou seja, uma relação entre dois sujeitos que se retroalimentam, ao ponto se entenderem como um só. Essa relação linda, tão única poderia ser um desastre se não houvesse a segunda função, de apresentar a criança um mundo além daquele vivido no primeiro tempo. Quando um segundo adulto passa a ser percebido pela criança, o mundo dela se amplia. Aquele cuidador com quem ela formava um só, passa a ser Outro, um Outro muito importante, que carrega pouquinho dela, e ela um pedacinho dele. Esse momento é essencial para saúde humana, a partir de agora aquela criança está habilitada para desenvolver como um ser jamais visto igual, ela mesma, e não mais unicamente dos desejos dos pais.

A segunda (e não menos importante) função exercida por outro adulto fica incumbida pelas primeiras experiências da criança com as diferenças, regras, leis e costumes. Nesse estágio a criança pode vivenciar e compreender que há dois tipos de adultos, duas formas de ser cuidada, logo ela se permite a ser diferente também, e assim começa a germinar os primeiros ramos de sua autenticidade. Sendo assim é fruto dessa função o reconhecimento da singularidade e da pluralidade das pessoas em nossa sociedade. Eu pessoalmente acho isso muito intenso.

É com o desejo de promover a um ser humano um ambiente para que ele se torne único, singular, consciente da sua importância e dependência da sociedade e pertencente a uma família que lhe oferecerá um colo, um abraço e um espaço para dividir seus sentimentos e incertezas, que um adulto pode se habilitar para acompanhar o desenvolvimento de um serzinho a ser chamado de filho.

O amor dos pais não exige réplica de suas histórias e nem consumação de seus sonhos, se assim fosse, seria um amor narcísico patogênico. O seu júbilo está em enxergar em seu filho um Outro e perceber-se como influência e não ditador. É fundamental para a saúde psíquica de qualquer ser humano se reconhecer como único, apesar de encontrar em si referências daqueles que o serviu como base.

Uau!! Escrevi tudo isso para, enfim, falar um pouco sobre Adoção Monoparental, que é o nosso tema.

A adoção monoparental é a adoção feita por um único adulto e pode ser feita tanto por mulheres como por homens. A unidade familiar Monoparental é reconhecida desde a constituição de 1988 e a adoção Monoparental desde 2009 quando foi promulgada a nova lei da adoção. Apesar do amparo legal, essa unidade familiar encontra muitos preconceitos e tabus, onde as fantasias discorrem desfechos sem precedentes. Essa visão míope dessa estrutura familiar impossibilita, muitas vezes, que um adulto, com estabilidade financeira, promovedor de um ambiente adequado e saudável, capaz de promover o cuidado e o amor, de adotar uma criança.

Nossa sociedade sofre rápidas transformações sociais em relação as novas estruturas familiares, e apesar de ganharem um visibilidade enorme, os direitos e respeito por estes, infelizmente não vem com essa velocidade toda.

Impossibilidades jurídicas e sociais a parte. A adoção Monoparental também encontra alguns entraves psicológicos, facilmente enfrentados se os pretendentes à adoção forem bem acolhidos e orientados pela equipe de psicologia. Vou tentar explicar: O triângulo formado pela criança e suas duas figuras parentais é um grande aliado para o desenrolar de seu desenvolvimento. A criança desenvolve com um dos adultos um vínculo umbilical, e é a esse adulto que ela recorre toda vez que seus sentimentos ficam confusos, incompreensíveis ou insuportáveis. É aquele adulto que a criança busca quando sente medo, sono, fome, desconfiança(..). É aquele adulto que acalma, protege, compreende e sustenta. O outro adulto, tem a tarefa de lembra-la que há lá fora um mundo muito legal para conhecer e explorar. Esse é o adulto que estimula a criatividade, socialização, brincadeiras, e lhe apresenta as regras e lhe impõe limites. É aquele adulto que possibilita a criança a transformação da relação simbiótica com o outro adulto e lhe demostrar que a vida é feita de diversas relações. É aquele que diz, “Não, não, hoje você vai dormir na sua cama.”

Na prática, todos os adultos, sejam eles homens ou mulheres, desempenham ambas as funções, de acolher e apresentar. Entretanto observa-se que os casais tendem a dividir essas funções para não se sobrecarregarem no exercício da parentalidade. A adoção Monoparental torna o adulto o único responsável pela filiação de uma criança, mas não o torna exclusividade de referência. É saudável para o psiquismo da criança ter mais de um referencial, para que ela possa vislumbrar a possibilidade de ser única, autêntica e poder reconhecer nos demais essa alteridade.

Seria uma exigência exacerbada e incompatível com a saúde humana, o adulto exercer com exclusividade ambas funções. Seu psiquismo precisa estar saudável para poder acompanhar e auxiliar o desenvolvimento de seu filho. Por isso, é importante que ele, o adulto, reconheça da importância de um terceiro na vida de seus filhos, seja eles mãe, pai, avó, tia, tio, primo, vizinho, médico, psicólogo ou professor, o importante é que seja uma figura de confiança e frequente. Ressalvo, que as figuras de referência, apesar da importância, não tem nenhum compromisso de filiação com a criança, que é de exclusividade do pai ou mãe.

Heloísa Sampaio

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Heloisa Sampaio

Heloisa Sampaio

Carioca de coração, nascida no interior de São Paulo. Apaixonada pelo ser humano e uma curiosa da adoção e seus atravessamentos. Mergulhei nesse tema ainda na Universidade, desenvolvendo pesquisas e participando do "Transformando Nós em Laços" – Grupo de Apoio à adoção. Hoje estudo e pesquiso o desenvolvimento emocional de bebês e crianças e por consequência estudo o que o ambiente necessita oferecer a eles para que seu desenvolvimento seja saudável e evolutivo.
Sou psicóloga clínica na abordagem Psicanalítica com experiência em atendimento psicoterápico com crianças, adolescentes, famílias formadas através da adoção, puérperas e adultos, com as mais diversas queixas emocionais e de comportamento. Pós-Graduanda em atenção integral à saúde materno-infantil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Membro do Grupo de estudo sobre Clínica com Bebês e Crianças – Maternelle. Membro do Grupo de estudo “Gestação, Gravidez e Desenvolvimento Infantil”.  Aprimorada em Desenvolvimento Infantil na Perspectiva Psicanalítica – Prometheus/Bauru e em Fundamentos da Psicologia Perinatal e Parental – Gerar-SP. Graduada em Psicologia pela USC. Administradora da página Parentale Psicologia no Facebook e Instagram. Voluntária da Make-A-Wish Brasil. E agora, com muita honra, colunista do site Gravidez Invisível. Muito Prazer!
 
Heloisa Sampaio – Psicóloga – CRP 05/49813
E-mail: hsampaio.psicologia@gmail.com
Telefone: (21) 99757.5453
Clínica Psicológica da Barra - Barra da Tijuca/ Rio de Janeiro
Espaço Subjetivação – Botafogo/ Rio de Janeiro.

1 Comentário

  1. setembro 30, 2016 em 6:54 pm — Responder

    Inteligente e esclarecedor!

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