Gestação do coração

Adoção e Gestação do coração: o outro lado da espera

Quando falamos em gestação, falamos quase sempre na espera da família pela criança que está a caminho.

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Foto: brittanyestes.com

Na gestação biológica observamos a barriga da gestante crescer, sabemos o sexo, o peso a data aproximada do nascimento. Compramos o enxoval, preparamos a casa, o quarto e a família toda se mobiliza para receber o tão esperado bebê. Na gestação do coração, muitas incógnitas permeiam este processo, a começar pelo próprio tempo que a gestação irá durar. Esta espera, quase sempre tão longa, talvez seja a parte mais difícil para os pais e mães que aguardam pelo filho do coração.

E como será estar do outro lado da espera?

Muitas crianças que esperam por uma família já sofreram algum tipo de negligência ou maus tratos, e geralmente carregam consigo as marcas do abandono. Medos, expectativas, ansiedade, feridas não cicatrizadas. Uma série de sentimentos que acompanham os pequenos desde muito cedo.

Ao ser afastado da sua família de origem, o mundo da criança se torna incerto e inseguro. A adaptação nas instituições de acolhimento nem sempre é fácil. Aos poucos vão criando vínculos e estabelecendo laços com seus cuidadores e com a instituição que os acolhe, porém todo este cuidado não é o suficiente para curar as suas feridas. Crianças precisam de uma família que as protejam e assegure os seus direitos.

Entretanto, não é fácil para uma criança aceitar que deverá se afastar de sua família biológica e receber uma nova família. Por mais sofrimento que seus genitores tenham lhe causado, estes ainda são as figuras de referência para os pequenos, e abrir mão destes referenciais é extremamente ameaçador, já que são seres totalmente dependentes de cuidado e proteção. A realidade pode ser difícil, mas é algo que eles já conhecem.

Em meu contato com crianças acolhidas, encontrei os mais diversos perfis de crianças, desde bebês até adolescentes. Minha primeira experiência como psicóloga acompanhando um processo de adoção foi bastante desafiadora. De um lado um casal que há muito tempo esperava na fila de adoção. De outro, uma criança de um ano, acolhida desde o seu nascimento e bastante adaptada à instituição.

O primeiro encontro foi recheado de muita emoção… e também muito choro! Imagino que a expectativa de todo (ou quase todo) pai/mãe é que a criança imediatamente corra para os seus braços e que ambos se reconheçam como pai/mãe e filho. Porém, para aquela pequena criança (que apesar de ainda não falar sabia exatamente o que estava acontecendo), aquele momento representava uma mudança radical em sua vida, e instintivamente ela se defendeu. Para ela, ganhar uma nova família significava abrir mão de tudo o que ela conhecia e considerava familiar: a instituição, suas cuidadoras e as demais crianças acolhidas.

Foto: www.nataliebrennerwrites.com

Foto: www.nataliebrennerwrites.com

A cada encontro o choro aumentava na presença dos futuros pais, que calmamente se mantinham fortes e persistentes, aceitando-a incondicionalmente. E foi esta aceitação incondicional e confiança que eles transmitiram a cada instante, que fez com que a barreira do medo se rompesse e que a criança se entregasse a esta relação. Ao final do processo, pude ver nos olhos da pequena criança o brilho e a felicidade de estar pronta para o seu parto do coração.

Já com crianças maiores, a comunicação dos conflitos que envolvem esta espera é mais clara. Muitas mantêm o desejo de voltar para sua família de origem, já outras, ao passo que percebem que isso não será possível, desejam e sonham em ganhar um novo lar. Para elas, a espera também é dolorosa. Passam os dias imaginando como será sua nova família, como serão seus pais, se terão irmãos, tios, avós e cachorro, como será sua nova casa e sua nova escola. Até o momento em que a espera finalmente acaba e a chegada da nova família é anunciada.

Foto: lifeintolikeness.com

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Cada momento de encontro é único. Cada parto do coração é especial e singular. Mas o que sempre esteve presente em todas as aproximações que já presenciei, foi o olhar de realização da criança que ganha uma família, sinalizando que todo aquele tempo de espera valeu a pena.

Foto: www.sheknows.com

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Sabemos que este é só o começo. A adaptação dos pais e das crianças a esta nova vida não é fácil. É preciso muita paciência para se construir a intimidade, conhecer os próprios limites e aceitar os diversos sentimentos (positivos e negativos) que possam surgir para que esta relação se construa de forma positiva e com muito amor. A orientação profissional é bem vinda, já que auxilia estes novos pais e também as crianças a elaborarem todas estas mudanças.

Jaqueline da Silva Gonçalves

Psicóloga – CRP 12/14147

facebook.com/psicologajaquelinegoncalves

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