Psicologia & Adoção

Adoção x Devolução: Toda relação é uma construção – por Heloisa Sampaio

Quando falamos de uma adoção efetiva, antes de tudo deve ter ocorrido a adoção afetiva.

Escuto muito, muito mesmo, as pessoas falando o quão difícil é superar a burocracia da adoção. Penso cá com meus botões o quão burocrático é ter um filho, seja adotivo ou biológico. Se você planeja um filho, através da gestação biológica o casal geralmente se encaminha à um médico, faz alguns exames de sangue e tomam algum complemento ou remédio indicado pelo médico, após algumas tentativas a mulher engravida frequenta médicos mensalmente, preparam o corpo e mente, semanas antes do parto é uma loucura atrás de hospital e papelada do plano de saúde. Após o nascimento tem mais papéis e procedimentos da área da saúde, como vacina e testes. Há as que não têm plano de saúde e também aquelas que têm a fertilização artificial como caminho possível, o que aumenta drasticamente a burocracia.

Ter filhos é burocrático, são cidadãos, além de pertencerem à uma família, pertencem também à uma sociedade. Tornar-se pais através da adoção exige uma burocracia a fim de proteger as crianças e encontrar adultos que sejam aptos para amá-las e cuidá-las.

Os números de maus-tratos e tráfico infantil é grande em nosso país, por isso, no meu ponto de vista, o problema não é a burocracia para a adoção, mas sim a baixa qualidade dela. Em geral, visam mais os trâmites legais da adoção do que no desenvolvimento e fortalecimento de vínculos da família, e não esclarecem alguns pontos atribulados da adaptação do filho que chega através da adoção. A concretização dos processos burocráticos não é a adoção em si.

Quando falamos de uma adoção efetiva, antes de tudo deve ter ocorrido a adoção afetiva.

Infelizmente muitas de nossas crianças e pretendentes à adoção não recebem o suporte necessário na fase de adaptação – da criança aos pais e dos pais as crianças – para haja uma relação de compreensão, apoio e superação e dessa forma potencializar o desenvolvimento de um vínculo familiar forte e saudável. Com a ausência de um suporte adequado e especializado muitas de nossas possíveis famílias “morrem na praia” depois de uma longa jornada nadando contra a maré.

A devolução de crianças ao abrigo, em sua maioria acontece durante o estágio de convivência, quando a adoção legal ainda não foi formalizada. Algumas estatísticas não oficiais revelam que 10% das crianças abrigadas já vivenciaram uma adoção mal sucedida. Duplicando essa quantia, há adultos que se sentem frustrados, culpados, decepcionados por não terem conseguido exercer a paternidade/maternidade. Sim, os adultos também sofrem. E antecedendo o linchamento à eles, me pergunto: Onde é que estava a rede de apoio nesse momento?

Via de regra esses adultos nem se quer tem o direito à licença maternidade/paternidade para poderem receber e se adaptarem aos seus filhos; não recebem apoio diante da rejeição, brigas, birras e comportamentos “inadequados” da criança; a escola não está preparada para receber a criança que possivelmente terá alguns sintomas comuns da adoção; muitas famílias não tem precedentes de adoção e não sabem auxiliar o casal; os pais estão só. Desconheço relatórios oficiais sobre os motivos que leva os adultos a devolução de crianças, mas em geral leio que são motivos frívolos, mas ressalto que nenhum motivo é frívolo quando ocorrem com pessoas fragilizadas e sem apoio. Ninguém até então disse que o processo de adaptação da adoção é diferente da adaptação biológica. Os palpites chovem, as crenças populares atrapalham e as fantasias enlouquecem. Todos sofrem.

construção

As crianças, por sua vez, sofrem em demasia. Já é muito difícil para as crianças perceberem-se dependente de um outrem, agora uma criança sem uma filiação é dependente de um outrem desconhecido, temporal e superficial. As crianças que passaram por mais de um processo de adoção tem fortalecido dentro delas as vivências de abandono e de modo geral tem sintomas mais ressaltados comparados aqueles que viveram “apenas” o abandono de sua genitora.

Quando novamente adotadas comumente apresentam como sintoma a birra; insônia; agressividade; baixa-estima, insegurança, dificuldade de expressão de sentimentos; repulsa ao toque; comportamentos considerados inadequado pelos pais; rejeição a malas e mochilas, por lhe fazer relembrar as devoluções; tem crises comportamentais graves quando percebem a ausência dos pais; detestam ficar sozinhas; e não suportam permanecer por longos períodos em lugares de convivência social infantil comum, como casa de avós e escolas. Na necessidade da ausência dos pais, é recomentado que a criança permaneça em sua casa junto a um adulto de confiança (tanto dos pais quanto da criança) e que os pais lhe assegurem o retorno, para que ela possa se sentir segura. Evite viagens no período de adaptação, mesmo que a criança vá junto. O período de adaptação tende a se estender, uma vez que essas crianças carregam em sua bagagem emocional a dor de ter confiado em alguém. É necessário que os pais estejam fortalecidos para oferecerem comportamentos afetuosos e convencer seus filhos que eles estão sempre ao seu lado e que serão pais e filhos para sempre. Será uma longa jornada, com um destino incrivelmente lindo, a família.

Todo apoio é necessário, é importante que os pais saibam que não estão sozinhos, e que tudo bem não saber o que fazer ou se desesperar. Busque, peça ajuda. Ninguém existe sozinho. A família é o maior bem da nossa sociedade. É ela que apoia e oferece suporte em nossas rotinas diárias, quando uma família não dá certo, sofremos todos, criança, os pretendentes à adoção, cuidadores e sociedade. É uma dor narcísica, sabemos o quanto é importante ter alguém que nos cuide, nos proteja, nos oriente, nos faça pertencer. Quão traumático é nos sentir desamparado.

Incentivo muito que os pretendentes a adoção frequentem grupos de apoio adoção e façam um pré-natal psicológico para que possam com mais sabedoria sentir as dores e usufruir dos prazeres da paternidade e maternidade. Toda relação é uma construção. Toda estrutura sólida depende do conhecimento, dedicação e material usado.

Heloisa Sampaio – Psicóloga – CRP 05/49813
E-mail: hsampaio.psicologia@gmail.com
Telefone: (21) 99757.5453
Clínica Psicológica da Barra – Barra da Tijuca/ Rio de Janeiro
Espaço Subjetivação – Botafogo/ Rio de Janeiro.

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Heloisa Sampaio

Heloisa Sampaio

Carioca de coração, nascida no interior de São Paulo. Apaixonada pelo ser humano e uma curiosa da adoção e seus atravessamentos. Mergulhei nesse tema ainda na Universidade, desenvolvendo pesquisas e participando do "Transformando Nós em Laços" – Grupo de Apoio à adoção. Hoje estudo e pesquiso o desenvolvimento emocional de bebês e crianças e por consequência estudo o que o ambiente necessita oferecer a eles para que seu desenvolvimento seja saudável e evolutivo.
Sou psicóloga clínica na abordagem Psicanalítica com experiência em atendimento psicoterápico com crianças, adolescentes, famílias formadas através da adoção, puérperas e adultos, com as mais diversas queixas emocionais e de comportamento. Pós-Graduanda em atenção integral à saúde materno-infantil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Membro do Grupo de estudo sobre Clínica com Bebês e Crianças – Maternelle. Membro do Grupo de estudo “Gestação, Gravidez e Desenvolvimento Infantil”.  Aprimorada em Desenvolvimento Infantil na Perspectiva Psicanalítica – Prometheus/Bauru e em Fundamentos da Psicologia Perinatal e Parental – Gerar-SP. Graduada em Psicologia pela USC. Administradora da página Parentale Psicologia no Facebook e Instagram. Voluntária da Make-A-Wish Brasil. E agora, com muita honra, colunista do site Gravidez Invisível. Muito Prazer!
 
Heloisa Sampaio – Psicóloga – CRP 05/49813
E-mail: hsampaio.psicologia@gmail.com
Telefone: (21) 99757.5453
Clínica Psicológica da Barra - Barra da Tijuca/ Rio de Janeiro
Espaço Subjetivação – Botafogo/ Rio de Janeiro.

2 Comentários

  1. agosto 16, 2016 em 5:59 pm — Responder

    Maravilhoso esse texto .toda a verdade desse complexo mundo da adoção .Monica Dias de Souza Diogo

  2. agosto 19, 2016 em 1:32 pm — Responder

    Oi Heloísa,
    Sempre leio seus textos e gosto muito mesmo, mas confesso que este me deixou confusa. Logo no início você escreve que não há burocracia em demasia e compara as questões de cidadania com os trâmites que envolvem todos o processo de adoção, porque entendo que preparação afetiva não tem relação com burocracia jurídica. Porém, a nossa reclamação, como pais adotivos ou pretendentes, nunca foi contra a imprescindível necessidade de preparação ou questões de cidadania, mas sim contra a demora nos trâmites burocráticos, como a habilitação perante às Varas de Justiça, em que apenas a análise dos documentos demora um ano ou mais.
    Outra questão que não entendi foi a relação entre a demora no processo de adoção e maus-tratos, especialmente porque se os dados revelam que em média ocorrem 10% de devoluções, (o que é muito, muito muito triste, sem dúvida), a maioria das adoções são bem sucedidas. Fiquei pensando que se alguém sem muita familiaridade com o assunto ler seu artigo vai ter uma visão negativa da adoção ou achar que a burocracia é positiva. Quando, na minha opinião, seria uma visão errada e acho – pelos seus outros textos – que você também não acha isso. Por isso fiquei confusa. Obrigada!

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