Psicologia & Adoção

Adoção e o amor de mãe – Ressignificando o AMOR para o filho

Adoção: Ressignificando o amor materno para o filho

Quem de nós tem a certeza que receberá de volta o amor que investimos ? Ninguém.

O amor não é lógica matemática e não precede nenhuma ordem da razão. O amor é um vinculo que se constrói e se dá de formar única a cada um que se dispõe a amar. O amor é um elo, que une a aproxima as pessoas.

O amor é força motriz do vínculo pais-filho. Uma força que os pais precisam dispor a ofertar sem a garantia que receberá de volta. É um investimento emocional custoso e prazeroso ao mesmo tempo. Aquele que recebe amor saberá o que é ser amado. Mas só buscarão amar se presenciarem naqueles que amam o prazer do ato. Aquele que vê seus pais realizados em amar buscará sua realização no amor.

Foto: Eu que ti

Arquivo pessoal Foto: Eu que ti

O amor é necessidade constituinte de todo ser humano, estamos sempre em busca de sermos amados para amar. “Como fica forte uma pessoa quando está segura de que é amada!” (Freud). Cada pessoa tem sua forma de demonstrá-lo. Cada um de nós tem um amor que é possível ofertar. O amor muitas vezes vem camuflado, em pequenos atos simples e rotineiros. Ou até mesmo na oposição de alguma ideia, porque quando uma criança diz não aos seus pais, ela está segura que mesmo dizendo não, ela continuará sendo amada.

Uma criança que viveu em instituições de acolhimento e vivenciou o processo de adoção, em algum momento teve necessidades fundamentais negligenciadas, inclusive o amor. Mesmo que essa criança só tenha vivido alguns dias, semanas ou poucos meses, perceber-se sem amor é demasiadamente sofrido. Quando enfim ela é encontrada por pessoas dispostas a amá-la, ela tem sede de amor, mas tem medo de amar. Um Psicanalista Inglês, D. W. Winnicott, disse uma vez que “Esconder-se é um prazer, mas, não ser encontrado e uma catástrofe”. É catastrófico a abstinência do amor.

Mas não há sofrimento que o amor não seja capaz de consolar. “Comprimidos aliviam a dor, mas só o amor alivia sofrimento”. A criança quando, enfim, é encontrada por seus pais, precisa de um amor muito intenso, verdadeiro, que suporte todos seus medos, choros, angústia e até mesmo suas crueldades. Amar um filho implica em ser empático e presente, implica em dar carinho, proteção, atenção, limites e respeito, ensinar lhes regras e valores. Amar um filho é respeitar a sua história. É aceitá-lo nas suas qualidades, defeitos e limitações. O amor é transformador. O amor é persistente. O amor não é ensinado, é sentido, é vivido diariamente. Os pais são as grandes referências e têm grandes influencias sobre a capacidade de amar de filho.

É muito importante construir com a criança uma versão de amor, desde a sua origem. Aqueles que se tornam pais através do processo de adoção são o “segundo amor” da vida de seus filhos, e não menos importante. O que quero dizer é que seus filhos já tiveram a experiência do amor com a mulher que os gerou. Quando o bebê nasce, nove meses são sua vida inteira, e durante sua vida inteira, apenas conhecia o cheiro, voz e o calor dessa mulher que o aquecia. Seja qual for a história, foi ela quem o, nutriu, gestou e o lhe trouxe a vida. Claro, há qualidades dessa oferta de amor. Digo isso, porque mulheres que colocam seus filhos para adoção são inúmeras vezes condenadas por esse ato e quase ninguém consegue ver que elas, com suas limitações físicas, psíquicas, financeiras e sociais, ofertaram, por menor que seja, amor aquelas crianças que hoje alegram lares e instituições de acolhimento.

Porque lhes digo tudo isso? O primeiro amor das crianças que viveram o processo de adoção foi sequenciado pela a ausência desse amor, o que lhe causou um enorme sofrimento. “As versões dos fatos, a forma como as pessoas lidam com esse acontecimento vão fazer toda diferença. Então você pode, por exemplo, dizer que o filho nascido de uma determinada mãe foi abandonado por aquela mãe e então ele foi rejeitado, e aquilo ser a história da criança, a criança rejeitada e abandonada. Você pode entender essa história como: Esta mãe, sabendo que não era capaz de dar a esse bebê o que ele precisava, abre mão desse bebê, em prol do bebê, para que ele tenha uma outra família que possa fazer isso. É um gesto de amor, não um gesto de abandono.” (Vera Iaconelli).

Pode ser que os olhos de uma criança nunca tenham tido a oportunidade de cruzar com os olhos da mãe biológica. Mas saber que alguém, por 9 meses te deu o sopro da vida, te acolheu, bem apertadinho, em seu ventre quentinho e aconchegante. E que por mais que essa experiências, hora não tenha sido tão prazerosa para ela, o pouco ( que é muito) que tinha te nutriu, te fez viver. 

Outras mães, não viveram a experiência da ligação umbilical com o filho, talvez porque não necessitasse. Seu amor já transbordava na “gravidez invisível”. Seu amor já aquecia o ninho para recebê-los, assim que o destino os enviasse. E quando os recebeu, os aqueceu em seus braços e compartilhou o que mais importante podia oferecer, uma história. Uma história de amor.

É que na verdade, não importa como, quando e onde esse amor se deu, importa que ele é intenso, verdadeiro, doado. Ele nos tira da condição homo sapiens e nos torna humano.

Arquivo pessoal Foto: Eu que ti

Arquivo pessoal
Foto: Eu que ti

Reeditar essa história auxilia a criança a elaborar todo o sofrimento que viveu, mas não apagará sua historia. E por isso mesmo precisa receber de seus pais todo o suporte, certificando-a de que esse amor sempre existirá e que é capaz de suportar tudo, até sentir-se segura da imensidão e força desse amor. Cabe ao segundo amor, aos pais, o papel mais decisivo na vida de seus filhos, ressignificar o que é o amor e permiti-los amar sem sofrer. Permitir que eles amem sem medo.

Por hora, gostaria de lembrar aos pais, que vocês são pessoas cabíveis de erros e acertos. Nem sempre estarão dispostos a suportar toda a exigência da maternidade e paternidade. Não se exijam. Vocês terão medo, raiva, angústias, noites em claro, momentos de choro(…), faz parte, dia ou outro isso acontece. Entretanto, se notarem que esses dias não são mais exceção, são rotineiros, busquem ajuda de um psicólogo. Buscar ajuda é não é sinal de fraqueza, é sinal de que está lutando, lutando por esse amor.

Eu gostaria muito de lhes contar a fórmula mágica do amor. Mas eu não a tenho. E suspeito que não exista. Porque para o amor, não cabe a razão. Mas posso lhes garantir que quem é amado e tem exemplos de pessoas que encontram sua felicidade em oferecer amor, tem grandes (bem grandes) chances de amar.

Heloísa Sampaio

Psicóloga – http://gravidezinvisivel.com/author/heloisa-sampaio/

 

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Heloisa Sampaio

Heloisa Sampaio

Carioca de coração, nascida no interior de São Paulo. Apaixonada pelo ser humano e uma curiosa da adoção e seus atravessamentos. Mergulhei nesse tema ainda na Universidade, desenvolvendo pesquisas e participando do "Transformando Nós em Laços" – Grupo de Apoio à adoção. Hoje estudo e pesquiso o desenvolvimento emocional de bebês e crianças e por consequência estudo o que o ambiente necessita oferecer a eles para que seu desenvolvimento seja saudável e evolutivo.
Sou psicóloga clínica na abordagem Psicanalítica com experiência em atendimento psicoterápico com crianças, adolescentes, famílias formadas através da adoção, puérperas e adultos, com as mais diversas queixas emocionais e de comportamento. Pós-Graduanda em atenção integral à saúde materno-infantil pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Membro do Grupo de estudo sobre Clínica com Bebês e Crianças – Maternelle. Membro do Grupo de estudo “Gestação, Gravidez e Desenvolvimento Infantil”.  Aprimorada em Desenvolvimento Infantil na Perspectiva Psicanalítica – Prometheus/Bauru e em Fundamentos da Psicologia Perinatal e Parental – Gerar-SP. Graduada em Psicologia pela USC. Administradora da página Parentale Psicologia no Facebook e Instagram. Voluntária da Make-A-Wish Brasil. E agora, com muita honra, colunista do site Gravidez Invisível. Muito Prazer!
 
Heloisa Sampaio – Psicóloga – CRP 05/49813
E-mail: hsampaio.psicologia@gmail.com
Telefone: (21) 99757.5453
Clínica Psicológica da Barra - Barra da Tijuca/ Rio de Janeiro
Espaço Subjetivação – Botafogo/ Rio de Janeiro.

2 Comentários

  1. junho 23, 2016 em 11:50 am — Responder

    É o texto mais completo, verdadeiro e emocionante que já li!!! Que bom que vc escreveu e que foi compartilhado! GRATIDÃO🌻

  2. setembro 14, 2016 em 9:03 pm — Responder

    Bem legal.

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